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Brasília, a capital da resistência cultural

por Ana Prestes, em 19.01.16

Brasília é uma jovem capital nacional de um grande país. Entre os países da América Latina é a mais nova capital, deixando bem para trás San José, capital da Costa Rica, que se tornou sede do governo em 1823. Seu perfil modernista e contemporâneo convoca à imaginação, à criatividade, ao libertário, à invenção transgressora do convencional. Terreno propício para a elaboração e profusão cultural, paradoxalmente Brasília é hoje a capital brasileira da resistência cultural.

 

Às vésperas da maior festa popular do “país do carnaval”, sua capital vive interessantes dilemas, tais como o “não me deixe ser quem eu sou”, “não me deixe expressar quem sempre fui”, “não sou capital do Brasil, mas da Suíça”, “não somos o país da música, mas do barulho”, “como assim carnaval não tem hora pra terminar?”, “de onde saíram tantos bagunceiros e foliões?”, “é preciso calar quem tem o que cantar” e por aí vai o show de despropérios de quem tenta enjaular o som e a voz de seu povo.

 

Os gestores públicos do Distrito Federal encontram-se nesta grande encruzilhada em que os próximos passos serão definidores para a saúde cultural desta jovem cidade que está “se descobrindo uma grande foliã”, segundo as palavras do Secretário de Cultura Guilherme Reis**. O governo pode se render ao imperativo do silêncio de cemitério da aristocracia da corte ou abrir caminhos democráticos e dar garantias para a expressão de seu potencial cultural em todas as suas facetas, sem segregação, repressão ou sufocamento***.  

 

A principal arma dos que tentam enquadrar a música e a folia tem sido a Lei 4092/08, também conhecida na cidade como a Lei do Silêncio ou do Silenciamento pra ser mais fiel à realidade. Como bem alerta o movimento de resistência cultural “Quem desligou o som?”****, se a lei do silêncio for seguida em Brasília neste carnaval, não haverá carnaval no DF, assim como se a lei fosse cumprida no réveillon, os super eventos do governo não poderiam ter ocorrido. Este e outros grupos, além de artistas e militantes do setor cultural, tem sido a ponta de lança da resistência cultural de Brasília.

 

A resistência não é diferente nas demais regiões do Distrito Federal, para além do circunscrito Plano Piloto. Talvez no entorno a tensão seja ainda mais latente, por ser estrutural e histórica. A lógica concêntrica da capital facilita a invisibilização da produção cultural que está para além da cidadela. A falta de apoio, estímulos, recursos e reconhecimento de sua expressão cultural é gritante. Talvez o sociólogo português Boaventura Santos encontrasse aqui um rico caso para aplicação de sua sociologia das ausências, destinada a investigar o que propositalmente não existe por ser produzido como tal e para não figurar como alternativa*****.

 

Resta refletir que é também nos grandes embates que se forjam identidades. Nenhuma cidade nasce pronta. A brasilidade de Brasília não pode ser apenas atributo do nome. Não dá pra esconder sua gente embaixo do tapete, isolar e sufocar seu som, descontinuar seus encontros, enquadrar sua espontaneidade, capitalizar a desesperança como o atrativo da não-cidade, da não comunidade. Não dá pra plastificar o cartão postal e pensar que será possível conviver sem viver plenamente no tom, no som, na cor e na alegria da gente brasileira que justifica esta cidade.    

 

* Socióloga e Cientista Política. Assessora Internacional na Câmara dos Deputados.


** https://www.facebook.com/guilherme.reis.355/posts/1137563176261753
*** Lembremos do alarmante dado de quase uma dezena de terreiros de candomblé e umbanda atacados em 2015, fora uma das estátuas de Orixás na prainha do Lago Paranoá.
**** https://www.facebook.com/quemdesligouosom/photos/a.402602013217525.1073741828.401913316619728/756392214505168/?type=3&theater

***** https://rccs.revues.org/1285

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publicado às 20:01



Cientista política e militante comunista. Altamira é uma homenagem à minha vó, Maria Prestes, e a todas as mulheres que, na luta por justiça e democracia, abdicaram do próprio nome.

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