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Antes tarde...

por Ana Prestes, em 22.12.07

Apontamentos sobre a Reunião do Conselho Internacional do FSM em Belém 2007

 

Foi com extremo ânimo e hospitalidade que a sociedade civil e política da cidade de Belém recebeu a última reunião do Conselho Internacional (CI) do Fórum Social Mundial em outubro de 2007. O encontro cumpriu com êxito uma extensa agenda de trabalho que incluía a preparação da jornada de ação global de 2008, o estabelecimento de um comitê de trabalho para o FSM 2009 e um importante passo na redefinição do formato de trabalho do Conselho Internacional.

 

Foi notório o envolvimento e o grau de articulação entre as entidades dos movimentos sociais e organizações não governamentais do Pará e dos outros estados da Amazônia brasileira na preparação da reunião. Assim que souberam da decisão do Conselho Internacional de Berlim (maio, 2007) de realizar o FSM 2009 na região Amazônica, mais certamente na cidade brasileira de Belém, as organizações e lideranças da região iniciaram um processo de organização interna e divisão de tarefas que certamente terá forte incidência no sucesso do processo preparatório e na realização do Fórum em Janeiro de 2009.

 

Após sete anos de realização do FSM, nos mais diferentes formatos e temas, ficou o aprendizado da importância e influência da cultura política e social local na preparação e realização dos eventos. Durante os dias em que o CI esteve na cidade de Belém, seus membros puderam respirar o ar e experimentar os sabores da região Amazônica, que darão o tom ao Fórum de 2009. Biodiversidade, conflitos étnicos, trabalho escravo, desenvolvimento sustentável, questão agrária, bio-combustiveis, questões indígenas, condições climáticas, preservação dos recursos naturais, entre outros temas, serão evidenciados com a ocorrência do FSM em Belém.

 

Para a construção deste processo já está em pleno funcionamento um Grupo de Facilitação, denominado GF2009, que inclui organizações que são parte de alguma rede ou organização membro do CI com sede em Belém e organizações do Escritório de São Paulo (antigo secretariado) buscando construir um comitê mais amplo que envolva organizações dos nove estados brasileiros da região amazônica e dos nove países amazônicos. Afinal, o Fórum foi aprovado para ser uma realização pan-amazônica e não meramente brasileira, uma polêmica que surtiu diversos debates nos dias da reunião do CI em Belém.

 

A preparação do Fórum de Belém – o desafio de construir um fórum pan-amazonico

 

Desde 2002 as organizações dos países da região amazônica vêm realizando edições anuais do Fórum Social Pan Amazônico que, segundo os próprios organizadores, conta com ampla participação dos movimentos sociais dos nove países amazônicos. Para tanto foi necessário um amplo esforço na realização de encontros fronteiriços em cidades como Letícia (Colômbia), Santa Helena do Uairén (Venezuela) e Oiapoque (Brasil), reunindo pela primeira vez povos que vivem distantes apesar de morarem lado a lado. Também as caravanas fluviais, segundo os organizadores, se tornaram uma marca forte do Fórum Social Pan-Amazônico, ao possibilitar o encontro de distintos povos e países. O atual desafio é aproveitar esta experiência acumulada e vencer os obstáculos financeiros e logísticos para constituir um comitê efetivamente pan-amazônico na preparação do FSM 2009.

 

A escolha da cidade de Belém vai ajudar neste processo, pois além de ser o segundo centro urbano da Amazônia com 1.500.000 habitantes, é uma cidade histórica, de tradição revolucionária, tendo sido palco de uma das maiores revoltas populares da região – a Cabanagem, ou revolta dos Cabanos – entre 1835 e 1840. Certamente precisará de investimento na infra-estrutura básica para receber cerca de 100 mil pessoas, conforme a expectativa de público que se vem construindo. Mas tem uma localização geográfica excelente para os povos que vem da região amazônica, por se encontrar na foz do rio Amazonas e também para a população que vem do restante do Brasil, por estar no extremo norte da malha rodoviária brasileira. Possui um aeroporto internacional necessitando, no entanto, de um grande esforço junto às companhias aéreas nacionais e internacionais para viabilizar maior freqüência de vôos e mais alternativas de rotas a serem implementadas.

 

 A jornada de ação global 2008

 

Outro ponto importante da reunião foi a discussão sobre a construção da Jornada de Ação Global de janeiro de 2008 que culminará no dia 26 com inúmeras atividades concomitantes. O objetivo do Dia de Ação Global é dar visibilidade às diversas articulações e lutas anti-globalização neoliberal em curso no mundo. A idéia é fortalecer estas lutas dando uma identificação global, interconectando iniciativas e envolvendo novos atores no processo Fórum Social Mundial.

 

O importante é que não está sendo sugerido que as organizações abandonem seus próprios trabalhos para construir uma ação, mas sim que realizem as suas ações particulares neste período pré-determinado. Nesta perspectiva, uma das grandes preocupações do CI, evidenciada na reunião, é fortalecer e promover ações nas regiões e países em que o processo FSM ainda é muito débil, como a Ásia Central, o Oriente Médio, os países da Ex-União Soviética.

 

Evidenciar as lutas e incluir os que estão de fora do FSM é o objetivo desta jornada. O modo como isto está sendo construído, no entanto, é bastante polêmico. Um grande investimento tem sido feito na Comissão de Comunicação do CI que acabou ficando como a principal responsável não só por informar, mas também mobilizar a jornada. Uma vez que o papel da Comissão de Mobilização foi totalmente neutralizado. Esta decisão, eminentemente política, pode ter grandes conseqüências no sucesso ou não da jornada.

 

A jornada não tem nenhum mote aglutinador, como uma grande bandeira que incentive as pessoas à aderirem a grandes manifestações, e isto já dificulta sua realização. Se, além disso, o CI se exime de identificar temáticas e conteúdos prioritários, deixando na mão das organizações fazerem suas próprias convocatórias e organizarem suas atividades de forma completamente voluntária, corre-se o grande risco de ocorrer uma inércia paralisante. A grande aposta nas ferramentas digitais e no espaço virtual como arena mobilizadora, tal como decidido pelo CI será um grande teste da capilaridade do FSM, que certamente esbarrará na dura realidade da exclusão digital. O aglutinador não é o Fórum em si mesmo, mas as lutas que aponta.

Um novo ator dentro do CI: O Grupo de Enlace

O Conselho Internacional vive um intenso debate sobre o seu funcionamento interno e suas responsabilidades na construção do processo Fórum Social Mundial e nos seus encontros mundiais. Como fruto deste debate, muitas alternativas já foram pensadas para a constituição de um corpo mais executivo ou técnico que implemente as decisões tomadas nas plenárias que reúnem as mais 100 entidade membros do conselho. Muitas críticas surgiram ao longo dos anos quanto à concentração de poder nas mãos do secretariado técnico brasileiro que organizou as três primeiras edições do FSM em Porto Alegre.

 

O grande desafio, para a maioria dos componentes do CI, é não cair em uma hierarquização que remeta a um modelo de “internacional dos movimentos sociais”. Segundo os membros da comissão que preparou uma proposta de Grupo de Enlace, é preciso coordenar de forma inovadora, um movimento que é inovador em si mesmo, o FSM. Entenda-se como inovador tudo aquilo que se diferencie dos modelos internacionalistas partidários, especialmente os de herança leninista que trilharam uma forte tradição de movimento internacional anticapitalista e que ainda tem forte influência no hoje denominado movimento antiglobalização neoliberal.

 

O Grupo de Enlace (GE) é uma expressão e não uma representação do CI. Contém 16 entidades membros, sendo 11 titulares e 5 suplentes. A reunião do CI teve o êxito de constituir um corpo que contempla todas as regiões do mundo e com um importante balanço de gênero nas representações das entidades que o integram. Organizações como a Aliança Social Continental, a Cosatu (Central de Trabalhadores da África do Sul), a OCLAE (organização dos estudantes latino-americanos), a entidade que organiza os Encontros Hemisféricos contra ALCA (sediada em Cuba), terão grande responsabilidade no interior deste grupo para fazer com que os movimentos sociais tenham maior protagonismo na construção deste processo que busca um Outro Mundo Possível.

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publicado às 16:40



Cientista política e militante comunista. Altamira é uma homenagem à minha vó, Maria Prestes, e a todas as mulheres que, na luta por justiça e democracia, abdicaram do próprio nome.

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