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Sobre o próximo Fórum Social Mundial (III)

por Ana Prestes, em 01.10.07
O futuro do FSM
 
Neste presente momento, enquanto constroem o FSM 2008, os membros do Conselho também se dedicam à eleição de uma espécie de secretaria técnica ou “grupo de enlace” como o denominaram no CI. A sua criação vem de encontro com as reiteradas dificuldades encontradas pelo corpo de mais de 100 organizações, que constitui o conselho, de ser mais determinante na condução das tarefas aprovadas nas plenárias e junto às demandas apresentadas pelos diversos setores do movimento mundial anti-globalização.
 
O grupo de enlace ou facilitação terá a missão de coordenar de forma “inovadora” este que é uma inovação política em si mesmo: o Fórum Social Mundial. Seu papel será o de ser expressão das lutas e não de fazer representação de grupos, como defendem seus formuladores. Mas há quem diga que se está tentando mudar o funcionamento da coordenação promovendo uma simples mudança de cadeiras. O desfecho será na próxima reunião do CI em Belém do Pará (outubro, 2007).
 
O fato é que o conselho e o próprio fórum vivem uma certa crise de perspectiva. A institucionalização do seu processo foi inevitável. Perdeu o viço da novidade e ainda não conseguiu se recriar de modo a emergir novamente na cena pública como algo potente e necessário. Está na agenda dos movimentos, mas muitos já alegam ser por demais dispendioso e pouco efetivo atender a todos os encontros. Em 2008 assumirá a forma de jornada de mobilizações e em 2009 volta a ser novamente centralizado, agora em um local simbólico, a Região Amazonica, na sua parte Brasileira. O Fórum volta pra casa, será para retomar o fôlego?
 
Quando as especulações eram se o Fórum de 2009 seria novamente na África, voltaria para uma cidade brasileira, como Salvador ou Curitiba ou iria para mares nunca dantes navegados, como a Coreia, surge a proposta do FSM na Amazónia. A proposta inicial pode sugerir algumas críticas, tais como o fato de ser apresentada como sendo um Fórum da Região Amazónica, como território autónomo, sendo que a sede do encontro será no coração do Brasil, no Pará. Também pelas motivações temáticas, de se inserir no atual debate sobre o aquecimento global, capitaneado por Ângela Merckel e Bush, como a principal bandeira de uma cidadania globalizada. Mas por outro lado, há incríveis possibilidades deste FSM superar seus desvios de origem.
 
O acumulo propiciado por seguidas edições do Fórum Pan Amazónico trouxe para os povos e organizações da região uma sincronia no trabalho organizativo e no tratamento das temáticas que mais os afligem. Será portanto, uma forma de reparar um aspecto defasado do FSM, o tratamento adequado das questões amazónicas e de tudo que isto implica nas lutas ambientais, territoriais e de direitos humanos. A região que abrigará o Fórum está no coração de um continente que fervilha em desafios políticos e sociais tanto a partir dos movimentos como de governos comprometidos com uma globalização contra-hegemônica, o que certamente terá impacto nos rumos do fórum.
 
O anúncio do FSM 2009 na Amazônia será também mais um fator aglutinador e incentivador das jornadas de janeiro. Afinal, todos que estão unidos na construção do outro mundo possível se preocupam com o futuro deste “espaço” que já tornou possíveis tantos “movimentos” locais, nacionais, regionais e globais, que formam uma potente rede altermundialista. É paradoxal estar em um encontro para se programar o próximo, mas é preciso reconhecer que muito da força do FSM está neste movimento. A partir de cada atividade do dia de ação global se projetará mais uma luta, uma articulação, uma temática, a ser abordada no FSM 2009 em Belém.
 
Com todos os pontos críticos, o FSM continua sim sendo um importante fator mobilizador para o movimento anti-globalização neoliberal. Seguindo uma onda iniciada com o levante zapatista de 1994, passando por Seattle 1999, pelo I FSM em 2001 e a jornada contra a guerra do Iraque em 2003, o FSM em 2008 colocará em prática seu potencial de conectar as lutas locais e regionais em um alguns dias de ação em comum. A extensa rede que vem se formando através destes anos vai ser, enfim, colocada em prática.

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publicado às 14:48



Cientista política e militante comunista. Altamira é uma homenagem à minha vó, Maria Prestes, e a todas as mulheres que, na luta por justiça e democracia, abdicaram do próprio nome.

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