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No Restaurante (Drummond)

por Ana Prestes, em 15.12.13

"- Quero lasanha.

 

Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia – entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.

 

O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.

 

- Meu bem, venha cá.

 

- Quero lasanha.

 

- Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.

 

- Não, já escolhi. Lasanha.

 

Que parada – lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:

 

- Vou querer lasanha.

 

- Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.

 

- Gosto, mas quero lasanha.

 

- Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?

 

- Quero lasanha, papai. Não quero camarão.

 

- Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?

 

- Você come camarão e eu como lasanha.

 

O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:

 

- Quero uma lasanha.

 

O pai corrigiu:

 

- Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.

 

A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:

 

- Moço, tem lasanha?

 

- Perfeitamente, senhorita.

 

O pai, no contra-ataque:

 

- O senhor providenciou a fritada?

 

- Já, sim, doutor.

 

- De camarões bem grandes?

 

- Daqueles legais, doutor.

 

- Bem, então me vê um chinite, e pra ela… O que é que você quer, meu anjo?

 

- Uma lasanha.

 

- Traz um suco de laranja pra ela.

 

Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.

 

- Estava uma coisa, heim? – comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. – Sábado que vem, a gente repete… Combinado?

 

- Agora a lasanha, não é, papai?

 

- Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?

 

- Eu e você, tá?

 

- Meu amor, eu…

 

- Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.

 

O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultra-jovem.”


Fonte: Carlos Drummond de Andrade in: O Poder Ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso, 1972.


Lendo crônicas do Drummond para as minhas filhas, descobrimos esta. Já lemos várias vezes e sempre rimos muito. É bom pra perceber como, desde pequena, é difícil ser uma mulher que sabe o que quer.

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publicado às 11:43


1 comentário

De clarissa a 15.12.2013 às 17:26

Menina, eu que o diga... vou ler para as minhas também. Olha, respondi à mensagem que você me mandou sobre o IRBR, só recentemente a vi e respondi. Bjs

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Cientista política e militante comunista. Altamira é uma homenagem à minha vó, Maria Prestes, e a todas as mulheres que, na luta por justiça e democracia, abdicaram do próprio nome.

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